Sementes Liricas - Abilio Pacheco

sementes líricas 

... porque a poesia é uma mensagem para o futuro


por Abilio Pacheco *

 

 

Eu guardava a ideia para uma coleção como esta desde a década de 90, quando eu tinha os endereços de mais de 300 poetas, trovadores e escritores em pedaços de cartolina ordenados numa caixa de sapatos e acreditava que seria possível publicar autores sem a necessidade de se gastar valores absurdos nem com a obrigatoriedade de se fazer sempre impressões em milheiros. Duas décadas depois, mais exatamente em 2013 e 2014, ainda ensaiei colocar a ideia em prática mas não prosperou. Apesar disso, foi nesse período que decidi chamar de sementes poéticas a ideia que ainda teria que esperar mais um pouco, mais dois anos.
Eu fazia um curso do doutorado sobre poesia tardia na UNICAMP. Nas aulas, ouvi o professor Pedro Serra (Universidade de Salamanca) dizer que a poesia era uma mensagem numa garrafa, atirada ao mar, a um incógnito destinatário. Uma utopia prospectiva. Foram estudados dez poetas contemporâneos (portugueses e espanhóis) e a poesia de cada um trazia a certeza de que poema é uma mensagem para o futuro. Numa dessas aulas, enquanto a fala do professor se misturava na minha cabeça com a fala de um professor personagem de um filme, foi que me veio de estalo o nome que eu buscava.
No filme, o protagogista era um adolescente que havia descoberto um acelerador de moléculas, que aplicou em si mesmo para amadurecer ou envelhecer e passara a ser professor da escola onde estudava. Na cena que me veio à mente, ele pegava uma semente e pergunta para a turma ‘o que eles viam’. Enquanto os alunos respondiam “uma semente”, ele respondia: “eu vejo possibilidades”.
Era isso! Um poema é um pequeno repositório de algo porvir, é uma mensagem para o futuro (como o papel na garrafa jogada ao mar), é um leque de possibilidades inimagináveis ainda que nos falte um acelerador de partículas... é uma semente. É uma potência, uma força latente seja no plano pessoal (poetas que se indiciam promissores), seja no plano universal (poetas experimentados que buscam novas possibilidades), seja um desejo de achar um caminho (num primeiro livro de poemas), seja o desejo de reconhecimento (mesmo numa publicação fora do grande circuito comercial), seja o desejo de contribuir com a plantação ou semeadura (“a ideia é inovadora e quero dizer que eu apoio”), seja alguma outra possibilidade que não me ocorra agora.
De todo modo, tenho a certeza que cada um dos 197 poetas que enviaram poemas comungam de uma mesma ideia: é possível tornar a poesia através do livro impresso em papel acessível aos leitores próximos e distantes em volumes pequenos, bonitos, singelos e leves como um sachê de sementes cujo fruto tanto pode demorar a grelar, como pode não vingar, mas que será entregue à terra, à água, ao sol e ao tempo...
Este volume faz parte do primeiro plantio de 30 sachês!


* Professor, escritor, idealizador de projetos literários quixotescos. Doutorando em Literatura UNICAMP-Fu-Berlin-DAAD.

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